“Devemos, portanto – em recuo do reino e da glória, na brecha aberta
entre o passado e o futuro - nos tornar vaga-lumes e, dessa forma, formar novamente uma comunidade do
desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de
pensamentos a transmitir.Dizer sim na noite atravessada de lampejos e não se contentar em
descrever o não da luz que nos ofusca.”
Georges
Didi-Huberman
Por Bárbara Kanashiro, Denise Rachel e Diego Marques
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| Invisibilidade Pública #1 Semana Experimental Urbana, Porto Alegre/RS |
Ao realizar a sétima
edição do Perfografia, o Coletivo Parabelo, junto à iniciativa da Semana
Experimental Urbana (SEU) propôs “experimentar o experimental” através da
performance urbana, fora dos limites da cidade de São Paulo – local de origem
do coletivo. Assim, na condição de estrangeiros, desembarcamos em Porto Alegre.
No roteiro aeroporto-hospedagem a capital do Rio Grande do Sul mostrava um
mosaico de arquitetura neoclássica e moderna. O projeto urbanístico e a
industrialização exibiam uma cidade em que as desigualdades sociais pareciam
não ser discrepantes, se comparadas às demais capitais brasileiras. Porto
Alegre se apresentava como uma imensa Zona Urbana Luminosa. Deste modo, uma
urgência emergiu no coletivo: como irmos para fora da luz e ainda assim
produzirmos um lampejo? Como não se contentar em descrever o não da luz que nos ofusca e agir apesar de tudo? Uma ignição se fez
presente: ir além do olhar, olhar com o corpo inteiro, ir sem ver. Vagamos.
No corpo a corpo com a
metrópole, buscamos tatear as intensidades que escapavam a fugacidade com a
qual o espaço urbano organizava-se, a fim de promover espaços de visibilidade e
de circulação de mercadorias em acordo com a lógica espetacular. Para tanto,
tornou-se premente enfatizarmos dois aspectos específicos em nossa experiência
corporal com a cidade: a instabilização da primazia do olhar e a experimentação
da lentidão. Na tentativa de radicalizarmos estas proposições, optamos por
divagarmos em Porto Alegre através de meios de transporte como táxis, vans, ônibus
e metrô, emulando práticas como as Free Flux Tours, saídas a lugares inusitados
na cidade de Nova York dos anos 70, organizadas pelo grupo Fluxus e das
andanças feitas com automóvel por Lygia Pape, no Rio de Janeiro entre as
décadas de 60 e 70 em busca de seus Espaços Imantados. Assim, nos transformamos em vagabundos motorizados.
Deste modo, nos perdemos
em Porto Alegre mesclando percursos que alternavam em caminhadas de longas
distâncias a pé, até a utilização de vans que levavam a lugares desconhecidos e
de nomes pitorescos como Tristeza, bairro da zona sul da cidade, ou mesmo
percorrendo todo o itinerário do metrô, por meio do qual encontramos Santo
Afonso, um híbrido de periferia com zona rural e industrial,
localizada no extremo norte porto alegrense. Embora às vezes tenhamos optado por
meios de circulação rápida, ainda sim, pudemos testar a emergência de estados
corporais errantes, nos quais a combinação de desorientação e lentidão nos
lançava na cegueira com a qual pudemos experimentar uma apreensão sensível das
opacidades da metrópole. Vagabundos e Vagarosos – mas não solitários.
Além dos atravessamentos
das diversas formas de vida com as quais esbarramos em nossas errâncias
urbanas, o SEU nos colocou em contato com outros artistas que por meio de uma
pluralidade de práticas artísticas atravessam a cidade ao mesmo tempo em que
são atravessados por ela. A farinha de trigo do Couve com Sabão, o martelo de
Fabrício Carvalho, o capuz de Jota Mombaça, o papel higiênico, as escovas de
lavar roupa e o elástico do Coletivo Parabelo. Tocantins, Tatuí, Rio Claro,
Minas Gerais, Rio Grande do Norte e São Paulo atravessaram-se com o centro da
capital do Rio Grande do Sul em uma tarde chuvosa de segunda feira. Ao
transformarem espaços normatizantes em espaços nomadizantes, investiram em
outras formas de estar com o espaço urbano, irrompendo e/ou diluindo a
separação entre arte e vida. Mas não o fizeram sozinhos, fizeram-no também os
celulares dos transeuntes, os chips telefônicos dos ambulantes, as garrafas e
os churrasquinhos dos moradores em situação de rua e a bola do senhor das
embaixadinhas. Lampejos intermitentes, divagações do desejo com a cidade que
nos fazem vagabundos, vagarosos e vaga-lumes.
Apesar de tudo.
