quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

VAGABUNDOS, VAGAROSOS E VAGA-LUMES: CORPOS URBANOS ERRANTES EM PORTO ALEGRE


“Devemos, portanto – em recuo do reino e da glória, na brecha aberta entre o passado e o futuro - nos tornar vaga-lumes e, dessa forma, formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo, de pensamentos a transmitir.Dizer sim na noite atravessada de lampejos e não se contentar em descrever o não da luz que nos ofusca.”

Georges Didi-Huberman


Por Bárbara Kanashiro, Denise Rachel e Diego Marques


Invisibilidade Pública #1 Semana Experimental Urbana, Porto Alegre/RS

Ao realizar a sétima edição do Perfografia, o Coletivo Parabelo, junto à iniciativa da Semana Experimental Urbana (SEU) propôs “experimentar o experimental” através da performance urbana, fora dos limites da cidade de São Paulo – local de origem do coletivo. Assim, na condição de estrangeiros, desembarcamos em Porto Alegre. No roteiro aeroporto-hospedagem a capital do Rio Grande do Sul mostrava um mosaico de arquitetura neoclássica e moderna. O projeto urbanístico e a industrialização exibiam uma cidade em que as desigualdades sociais pareciam não ser discrepantes, se comparadas às demais capitais brasileiras. Porto Alegre se apresentava como uma imensa Zona Urbana Luminosa. Deste modo, uma urgência emergiu no coletivo: como irmos para fora da luz e ainda assim produzirmos um lampejo? Como não se contentar em descrever o não da luz que nos ofusca e agir apesar de tudo? Uma ignição se fez presente: ir além do olhar, olhar com o corpo inteiro, ir sem ver. Vagamos.
                         
No corpo a corpo com a metrópole, buscamos tatear as intensidades que escapavam a fugacidade com a qual o espaço urbano organizava-se, a fim de promover espaços de visibilidade e de circulação de mercadorias em acordo com a lógica espetacular. Para tanto, tornou-se premente enfatizarmos dois aspectos específicos em nossa experiência corporal com a cidade: a instabilização da primazia do olhar e a experimentação da lentidão. Na tentativa de radicalizarmos estas proposições, optamos por divagarmos em Porto Alegre através de meios de transporte como táxis, vans, ônibus e metrô, emulando práticas como as Free Flux Tours, saídas a lugares inusitados na cidade de Nova York dos anos 70, organizadas pelo grupo Fluxus e das andanças feitas com automóvel por Lygia Pape, no Rio de Janeiro entre as décadas de 60 e 70 em busca de seus Espaços Imantados.  Assim, nos transformamos em vagabundos motorizados.

Deste modo, nos perdemos em Porto Alegre mesclando percursos que alternavam em caminhadas de longas distâncias a pé, até a utilização de vans que levavam a lugares desconhecidos e de nomes pitorescos como Tristeza, bairro da zona sul da cidade, ou mesmo percorrendo todo o itinerário do metrô, por meio do qual encontramos Santo Afonso, um híbrido de periferia com zona rural e industrial, localizada no extremo norte porto alegrense. Embora às vezes tenhamos optado por meios de circulação rápida, ainda sim, pudemos testar a emergência de estados corporais errantes, nos quais a combinação de desorientação e lentidão nos lançava na cegueira com a qual pudemos experimentar uma apreensão sensível das opacidades da metrópole. Vagabundos e Vagarosos – mas não solitários.

Além dos atravessamentos das diversas formas de vida com as quais esbarramos em nossas errâncias urbanas, o SEU nos colocou em contato com outros artistas que por meio de uma pluralidade de práticas artísticas atravessam a cidade ao mesmo tempo em que são atravessados por ela. A farinha de trigo do Couve com Sabão, o martelo de Fabrício Carvalho, o capuz de Jota Mombaça, o papel higiênico, as escovas de lavar roupa e o elástico do Coletivo Parabelo. Tocantins, Tatuí, Rio Claro, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e São Paulo atravessaram-se com o centro da capital do Rio Grande do Sul em uma tarde chuvosa de segunda feira. Ao transformarem espaços normatizantes em espaços nomadizantes, investiram em outras formas de estar com o espaço urbano, irrompendo e/ou diluindo a separação entre arte e vida. Mas não o fizeram sozinhos, fizeram-no também os celulares dos transeuntes, os chips telefônicos dos ambulantes, as garrafas e os churrasquinhos dos moradores em situação de rua e a bola do senhor das embaixadinhas. Lampejos intermitentes, divagações do desejo com a cidade que nos fazem vagabundos, vagarosos e vaga-lumes.  Apesar de tudo.