Rua de Brincar, Perfografia#11_Capão Redondo/SP
Por Eliane Andrade
As primeiras ocupações do bairro do Capão Redondo ocorreram
nos arredores do Parque Santo Dias. O nome do parque é uma homenagem ao
operário metalúrgico Santo Dias da Silva, que morreu no dia 30 de Outubro de
1979, dia de greve, baleado com um tiro nas costas em frente à fábrica
Sylvania. Em sua homenagem também, desde sua morte, seus amigos e companheiros
pintam com tinta vermelha, no asfalto da rua onde existia a fábrica, a
inscrição: “Aqui foi assassinado, pela polícia militar, às 14h, o operário
Santo Dias 30-10-1979”. Essa é uma das muitas histórias de violência que
aconteceram e que ainda acontecem no local. Tal como a notícia de um tiro que
veio no meio da brincadeira, atingindo uma criança de 12 anos de idade enquanto
esta jogava bolinha de gude com seus amigos. A violência é uma linha dura neste
bairro, que deixa rastros no corpo humano/urbano.
Mas quais são as histórias do bairro que não são contadas ou
noticiadas?
Foi o entorno do Parque Santo Dias, o lugar escolhido pelo
Coletivo Parabelo para realizar o Perfografia#11_Capão Redondo/SP, onde
caminhamos e nos encontramos, através da Arte da Performance com a Geografia
dos Afetos, nomeada por Suely Rolnik, em busca do que está fora do foco da
cartografia oficial, aquela efetuada por
especialistas no assunto, instituída e autorizada por organizações
macropolíticas. Neste âmbito, o Capão é apontado como
o lugar onde mais ocorrem crimes contra a vida e, está incluso no Mapa da
Violência, desenvolvido pelo CEBELA – Centro Brasileiro de Estudos Latino
Americanos, vinculado à FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências
Sociais.
Diferente do formato proposto pela cartografia oficial, a qual almeja
identificar e classificar características geográficas, políticas, culturais e
econômicas de determinada região, o Coletivo Parabelo experimenta o ato de
cartografar através da performance. Na Arte da Performance, o Performer cria
por meio de Leitmotive, termo alemão geralmente associado à criação
literária que, neste caso, constituiria as linhas de força para a composição de
uma ação performática. Esta cartografia performática consiste no processo de
errar pelas ruas de determinado bairro, como o Capão Redondo, experimentando no
corpo a corpo com o outro urbano a ativação do corpo vibrátil – um corpo
disponível para compor com o emaranhado de linhas em permanente movimento, um
tempo-espaço de criação, no qual com auxílio do acaso pode fazer emergir
acontecimentos, performances. Através da ativação do corpo
vibrátil na relação com o bairro percebi, ao passar pela Rua Arroio do Engenho,
alguns rastros: duas amarelinhas, um campo de futebol e uma inscrição “Rua de
Brincar”, pintados com tinta cor de rosa no chão. Utilizo aqui a palavra
“rastro” para me referir à presença de uma ausência que, naquele momento me fez
perceber um aspecto que não foi identificado pela cartografia oficial, uma rua de brincar instituída por seus moradores, um
espaço de Ludicidade num local que não foi projetado para acontecer no mapa do
bairro, uma linha de fuga no Capão Redondo.
Esses rastros geraram os Leitmotive
para a composição da performance “Rua de Brincar”. Através desta ação
performática me entramei por entre as linhas de vida deste lugar. No dia 25 de Agosto de
2013, por meio da performance Rua de Brincar, emergiram outros fatores que vão
para além dos constatados na cartografia oficial. A ação era simples,
perguntava às pessoas se elas conheciam uma história de violência e, ao ouvir
as histórias que as pessoas contavam ou não (seja por medo ou tristeza), as escrevia
com giz no chão. Uma escrita que permaneceu por ali como rastro, e que, como
todo rastro corre o risco de desaparecer. Tal como o rastro, essas histórias de
violência que tornaram-se visíveis também correm o risco de desaparecer se não
contadas. Pois, diferente do que é considerado como uma historiografia
oficial, autorizada e gerida macropoliticamente, registrada em arquivos
institucionais, em livros didáticos, preservada e reproduzida em grande escala;
“Rua de Brincar” propõe a escrita de outras histórias, engendradas no âmbito
micropolítico das singularidades e desejos daqueles que diariamente
corporificam, atualizam e participam da transformação daquele local. Ouvi e escrevi por diversas vezes na rua a história de
violência que algumas pessoas me contaram, de uma mulher que morreu queimada na
pracinha ao lado da Rua de Brincar. Ouvi e escrevi na rua a história de
violência que um menino me contou, de uma pessoa que se jogou do alto do prédio
da COHAB. Ouvi e escrevi na rua, a história que uma moça que passava com seus
amigos me contou, de que aquela “Rua de Brincar” era chamada de “Rua da Morte”,
rua esta localizada no entorno do parque que tem um nome em homenagem a
uma das vítimas de violência no Capão, Santo Dias, a quem me referi
anteriormente e a quem seus amigos e companheiros rememoram o fato através de
um escrito no asfalto em tinta vermelha. Assim, as narrativas efêmeras escritas
com giz no asfalto, as histórias de violência que ouvi e escrevi, eram a
presença da ausência daqueles que se foram, ou dos que sofreram alguma espécie
de violência.
Nesta cartografia/historiografia através da performance pude perceber
que aquela rua possui a ambivalência de, ao mesmo tempo, representar a morte e
constituir-se como lugar de quem inventa outros modos de vida, em um espaço de
ludicidade. Porque para quem não tem medo ela ainda é a Rua de Brincar. Para
quem alimenta o desejo de resistir à imposição e dureza presentes nas
documentações oficiais noticiadas e registradas, esta rua abriga vida e ainda é
a Rua de Brincar. Para quem efetivou um desejo capaz de modificar o nome
registrado na cartografia oficial, como comprova a placa de identificação (Rua
Arroio do Engenho), grafando-o no corpo desta rua, em suas entranhas de
asfalto, esta ainda é a Rua de Brincar.
