terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Capão Redondo: para além das cartografias da violência


Rua de Brincar, Perfografia#11_Capão Redondo/SP

Por Eliane Andrade

As primeiras ocupações do bairro do Capão Redondo ocorreram nos arredores do Parque Santo Dias. O nome do parque é uma homenagem ao operário metalúrgico Santo Dias da Silva, que morreu no dia 30 de Outubro de 1979, dia de greve, baleado com um tiro nas costas em frente à fábrica Sylvania. Em sua homenagem também, desde sua morte, seus amigos e companheiros pintam com tinta vermelha, no asfalto da rua onde existia a fábrica, a inscrição: “Aqui foi assassinado, pela polícia militar, às 14h, o operário Santo Dias 30-10-1979”. Essa é uma das muitas histórias de violência que aconteceram e que ainda acontecem no local. Tal como a notícia de um tiro que veio no meio da brincadeira, atingindo uma criança de 12 anos de idade enquanto esta jogava bolinha de gude com seus amigos. A violência é uma linha dura neste bairro, que deixa rastros no corpo humano/urbano.

Mas quais são as histórias do bairro que não são contadas ou noticiadas?

Foi o entorno do Parque Santo Dias, o lugar escolhido pelo Coletivo Parabelo para realizar o Perfografia#11_Capão Redondo/SP, onde caminhamos e nos encontramos, através da Arte da Performance com a Geografia dos Afetos, nomeada por Suely Rolnik, em busca do que está fora do foco da cartografia oficial, aquela efetuada por especialistas no assunto, instituída e autorizada por organizações macropolíticas. Neste âmbito, o Capão é apontado como o lugar onde mais ocorrem crimes contra a vida e, está incluso no Mapa da Violência, desenvolvido pelo CEBELA – Centro Brasileiro de Estudos Latino Americanos, vinculado à FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais.

Diferente do formato proposto pela cartografia oficial, a qual almeja identificar e classificar características geográficas, políticas, culturais e econômicas de determinada região, o Coletivo Parabelo experimenta o ato de cartografar através da performance. Na Arte da Performance, o Performer cria por meio de Leitmotive, termo alemão geralmente associado à criação literária que, neste caso, constituiria as linhas de força para a composição de uma ação performática. Esta cartografia performática consiste no processo de errar pelas ruas de determinado bairro, como o Capão Redondo, experimentando no corpo a corpo com o outro urbano a ativação do corpo vibrátil – um corpo disponível para compor com o emaranhado de linhas em permanente movimento, um tempo-espaço de criação, no qual com auxílio do acaso pode fazer emergir acontecimentos, performances. Através da ativação do corpo vibrátil na relação com o bairro percebi, ao passar pela Rua Arroio do Engenho, alguns rastros: duas amarelinhas, um campo de futebol e uma inscrição “Rua de Brincar”, pintados com tinta cor de rosa no chão. Utilizo aqui a palavra “rastro” para me referir à presença de uma ausência que, naquele momento me fez perceber um aspecto que não foi identificado pela cartografia oficial, uma rua de brincar instituída por seus moradores, um espaço de Ludicidade num local que não foi projetado para acontecer no mapa do bairro, uma linha de fuga no Capão Redondo.

Esses rastros geraram os Leitmotive para a composição da performance “Rua de Brincar”. Através desta ação performática me entramei por entre as linhas de vida deste lugar. No dia 25 de Agosto de 2013, por meio da performance Rua de Brincar, emergiram outros fatores que vão para além dos constatados na cartografia oficial. A ação era simples, perguntava às pessoas se elas conheciam uma história de violência e, ao ouvir as histórias que as pessoas contavam ou não (seja por medo ou tristeza), as escrevia com giz no chão. Uma escrita que permaneceu por ali como rastro, e que, como todo rastro corre o risco de desaparecer. Tal como o rastro, essas histórias de violência que tornaram-se visíveis também correm o risco de desaparecer se não contadas. Pois, diferente do que é considerado como uma historiografia oficial, autorizada e gerida macropoliticamente, registrada em arquivos institucionais, em livros didáticos, preservada e reproduzida em grande escala; “Rua de Brincar” propõe a escrita de outras histórias, engendradas no âmbito micropolítico das singularidades e desejos daqueles que diariamente corporificam, atualizam e participam da transformação daquele local. Ouvi e escrevi por diversas vezes na rua a história de violência que algumas pessoas me contaram, de uma mulher que morreu queimada na pracinha ao lado da Rua de Brincar. Ouvi e escrevi na rua a história de violência que um menino me contou, de uma pessoa que se jogou do alto do prédio da COHAB. Ouvi e escrevi na rua, a história que uma moça que passava com seus amigos me contou, de que aquela “Rua de Brincar” era chamada de “Rua da Morte”, rua esta localizada no entorno do parque que tem um nome em homenagem a uma das vítimas de violência no Capão, Santo Dias, a quem me referi anteriormente e a quem seus amigos e companheiros rememoram o fato através de um escrito no asfalto em tinta vermelha. Assim, as narrativas efêmeras escritas com giz no asfalto, as histórias de violência que ouvi e escrevi, eram a presença da ausência daqueles que se foram, ou dos que sofreram alguma espécie de violência.


Nesta cartografia/historiografia através da performance pude perceber que aquela rua possui a ambivalência de, ao mesmo tempo, representar a morte e constituir-se como lugar de quem inventa outros modos de vida, em um espaço de ludicidade. Porque para quem não tem medo ela ainda é a Rua de Brincar. Para quem alimenta o desejo de resistir à imposição e dureza presentes nas documentações oficiais noticiadas e registradas, esta rua abriga vida e ainda é a Rua de Brincar. Para quem efetivou um desejo capaz de modificar o nome registrado na cartografia oficial, como comprova a placa de identificação (Rua Arroio do Engenho), grafando-o no corpo desta rua, em suas entranhas de asfalto, esta ainda é a Rua de Brincar.