domingo, 9 de novembro de 2014
sábado, 12 de julho de 2014
Rapsódia no morro
Por Bárbara Kanashiro
A dor é feito pedra. Às vezes lisa às vezes estriada. Às vezes pequena às vezes imensa. Às vezes ela tem cor de terra, às vezes ela traz consigo um pedaço da vegetação ou do asfalto. Mas uma coisa que eu aprendi caminhando pelas vielas do Jaçanã é que a dor é difícil de carregar. O seu peso é do tamanho da sua história, e, às vezes, essa história é inenarrável. Como a da mulher que era mulambo e ressuscitou; do menino que sentia, mas não sabia dizer qual era a sua dor; do homem que levou um tiro nas costas; do senhor que não andava porque não aguentava subir ladeira. A cada história eu buscava uma pedra para carregar, e escolhia aquela que, de alguma forma, pedia para ser escolhida. Assim, pedra por pedra, fui errando pelas ruas da favela na região do Jaçanã.
Foi através das errâncias nesse bairro do extremo norte da cidade de São Paulo que habitamos territórios existenciais. No entendimento de Deleuze e Guattari, haveria território quando componentes de meios param de ser direcionais para se tornarem dimensionais, quando param de ser funcionais para se tornarem expressivos. Em outras palavras, há território a partir do momento em que há expressividade de ritmos como qualidades próprias que garantem a formação de um certo domínio. Entretanto, esse domínio não se constituiria como algo estanque, mas sim em constante processo de construção nas relações cotidianas entre habitantes e território habitado. Neste movimento expresso em diferentes ritmos é que emergiriam, segundo os filósofos franceses, modos e estilos de vida que caracterizam determinado tempo-espaço. Dessa forma, poderíamos pensar que, na ação de errar, de cartografar o espaço urbano através da performance, não estaríamos interessados em priorizar a identificação das funções e direções das condutas nos territórios existenciais, mas habitá-los, acompanhar e aprender com os processos e as qualidades que emergem na fricção entre os corpos. Não se trata de uma pesquisa sobre algo, mas uma pesquisa com alguém ou algo. Como afirmam os teóricos Eduardo Passos e Johnny Alvarez: “Cartografar é sempre compor com o território existencial, engajando-se nele”.
Se aceitarmos essa afirmação e entendermos que o processo de composição requer um cultivo ou um processo construtivo, poderíamos afirmar também que nesta relação está implicada uma postura de aprendizado, que suscita uma dedicação aberta e atenta ao aprendiz-cartógrafo. Este cultivaria uma disponibilidade à experiência, uma receptividade ao campo. Todavia, não adotamos o viés cientificista associado a um sujeito que intervêm em determinado campo, pois desejamos exercer composições urbanas, ideia que faz referência ao entendimento que Maria Beatriz de Medeiros propõe junto ao Corpos Informáticos (coletivo de performance ou fuleragem, modo como nomeiam suas ações, de Brasília). A experiência artística no espaço urbano de que chamam a atenção se distingue da arte como tentativa de ordenar uma visão já dada do mundo – sinal normatizante. As Cus (Composições Urbanas) buscariam tornar perceptível uma dimensão poética, os sinais nomadizantes. Estes seriam, segundo os integrantes do Corpos Informáticos, “sinais que produzem uma espécie de cesura, onde a espacialidade e a temporalidade anterior se tornam alteradas”.
Ao caminhar, ao perder-se pelo espaço urbano, o Coletivo Parabelo estaria desestabilizando os sinais normatizantes do cotidiano, convocando os caminhantes a tornar os espaços ordinários em extraordinários, a evidenciar os sinais nomadizantes e compor com o outro urbano, habitar um território existencial pela performance. Essa habitação, todavia, seria realizada com uma receptividade afetiva e uma abertura aos acontecimentos do acaso, segundo Alvarez e Passos, pois somente desta forma poderíamos atentar para o nômade, o dito e o inaudito. Isto nos parece fundamental, pois há um sem-número de coisas, de relações, de sentimentos, de sensações imanentes à experiência que muitas vezes o verbo não dá conta.
Por isto, desejamos ainda fazer tal como o rapsodo antigo, que faz itinerâncias pelas cidades em busca do encontro com o outro, cantando versos, costurando narrativas orais dispersas. A palavra rhapsoidós é oriunda de rháptein, coser e oidé, canto. Sua etimologia pode indicar que se tratava de um “costureiro de cantos”, o que tem relação intrínseca com a formação da cultura na Hélade. Uma sociedade que se baseava na tradição oral tinha em seus aedos e rapsodos uma forma de vitalizar a própria história. Não à toa, utilizavam recursos mnemônicos, de apelo à memória, como a combinação de sílabas longas e breves, os pés do poema, nomeados dessa forma por conta da marcação ser feita com os pés, que pisavam o chão cadenciando o ritmo com que os versos eram enunciados.
Essa característica da prosódia grega chama a atenção para o que Paola Berenstein Jacques denomina como Errantes Urbanos. Estes seriam aqueles que percebem a cidade no e pelo corpo através das errâncias, da experiência de perder-se em busca de uma prática do espaço urbano. Essa experiência é feita ao caminhar a pé. Embora não tenha um rumo, um trajeto definido, poderíamos dizer que o tempo do errante é o tempo do próprio passo. Dessa forma, poderíamos dizer que rapsodos e errantes se aproximam ao marcar o ritmo de seu canto, de sua caminhada pelo próprio pé, pelo próprio passo. Entretanto, diferente do rapsodo, que costura narrativas heróicas, épicas da tradição oral, o errante inscreve e deixa inscrever em seu corpo histórias do cotidiano, narrativas esquecidas pela História. De forma que em nenhum manual, em nenhuma enciclopédia constará que certa vez eu caminhei pelas ruas do Jaçanã em busca de histórias de dor, histórias que doíam feito pedra na garganta. Como a da mulher que era mulambo e ressuscitou; do menino que sentia, mas não sabia dizer qual era a sua dor; do homem que levou um tiro nas costas; do senhor que não andava porque não aguentava subir ladeira.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Capão Redondo: para além das cartografias da violência
Rua de Brincar, Perfografia#11_Capão Redondo/SP
Por Eliane Andrade
As primeiras ocupações do bairro do Capão Redondo ocorreram
nos arredores do Parque Santo Dias. O nome do parque é uma homenagem ao
operário metalúrgico Santo Dias da Silva, que morreu no dia 30 de Outubro de
1979, dia de greve, baleado com um tiro nas costas em frente à fábrica
Sylvania. Em sua homenagem também, desde sua morte, seus amigos e companheiros
pintam com tinta vermelha, no asfalto da rua onde existia a fábrica, a
inscrição: “Aqui foi assassinado, pela polícia militar, às 14h, o operário
Santo Dias 30-10-1979”. Essa é uma das muitas histórias de violência que
aconteceram e que ainda acontecem no local. Tal como a notícia de um tiro que
veio no meio da brincadeira, atingindo uma criança de 12 anos de idade enquanto
esta jogava bolinha de gude com seus amigos. A violência é uma linha dura neste
bairro, que deixa rastros no corpo humano/urbano.
Mas quais são as histórias do bairro que não são contadas ou
noticiadas?
Foi o entorno do Parque Santo Dias, o lugar escolhido pelo
Coletivo Parabelo para realizar o Perfografia#11_Capão Redondo/SP, onde
caminhamos e nos encontramos, através da Arte da Performance com a Geografia
dos Afetos, nomeada por Suely Rolnik, em busca do que está fora do foco da
cartografia oficial, aquela efetuada por
especialistas no assunto, instituída e autorizada por organizações
macropolíticas. Neste âmbito, o Capão é apontado como
o lugar onde mais ocorrem crimes contra a vida e, está incluso no Mapa da
Violência, desenvolvido pelo CEBELA – Centro Brasileiro de Estudos Latino
Americanos, vinculado à FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências
Sociais.
Diferente do formato proposto pela cartografia oficial, a qual almeja
identificar e classificar características geográficas, políticas, culturais e
econômicas de determinada região, o Coletivo Parabelo experimenta o ato de
cartografar através da performance. Na Arte da Performance, o Performer cria
por meio de Leitmotive, termo alemão geralmente associado à criação
literária que, neste caso, constituiria as linhas de força para a composição de
uma ação performática. Esta cartografia performática consiste no processo de
errar pelas ruas de determinado bairro, como o Capão Redondo, experimentando no
corpo a corpo com o outro urbano a ativação do corpo vibrátil – um corpo
disponível para compor com o emaranhado de linhas em permanente movimento, um
tempo-espaço de criação, no qual com auxílio do acaso pode fazer emergir
acontecimentos, performances. Através da ativação do corpo
vibrátil na relação com o bairro percebi, ao passar pela Rua Arroio do Engenho,
alguns rastros: duas amarelinhas, um campo de futebol e uma inscrição “Rua de
Brincar”, pintados com tinta cor de rosa no chão. Utilizo aqui a palavra
“rastro” para me referir à presença de uma ausência que, naquele momento me fez
perceber um aspecto que não foi identificado pela cartografia oficial, uma rua de brincar instituída por seus moradores, um
espaço de Ludicidade num local que não foi projetado para acontecer no mapa do
bairro, uma linha de fuga no Capão Redondo.
Esses rastros geraram os Leitmotive
para a composição da performance “Rua de Brincar”. Através desta ação
performática me entramei por entre as linhas de vida deste lugar. No dia 25 de Agosto de
2013, por meio da performance Rua de Brincar, emergiram outros fatores que vão
para além dos constatados na cartografia oficial. A ação era simples,
perguntava às pessoas se elas conheciam uma história de violência e, ao ouvir
as histórias que as pessoas contavam ou não (seja por medo ou tristeza), as escrevia
com giz no chão. Uma escrita que permaneceu por ali como rastro, e que, como
todo rastro corre o risco de desaparecer. Tal como o rastro, essas histórias de
violência que tornaram-se visíveis também correm o risco de desaparecer se não
contadas. Pois, diferente do que é considerado como uma historiografia
oficial, autorizada e gerida macropoliticamente, registrada em arquivos
institucionais, em livros didáticos, preservada e reproduzida em grande escala;
“Rua de Brincar” propõe a escrita de outras histórias, engendradas no âmbito
micropolítico das singularidades e desejos daqueles que diariamente
corporificam, atualizam e participam da transformação daquele local. Ouvi e escrevi por diversas vezes na rua a história de
violência que algumas pessoas me contaram, de uma mulher que morreu queimada na
pracinha ao lado da Rua de Brincar. Ouvi e escrevi na rua a história de
violência que um menino me contou, de uma pessoa que se jogou do alto do prédio
da COHAB. Ouvi e escrevi na rua, a história que uma moça que passava com seus
amigos me contou, de que aquela “Rua de Brincar” era chamada de “Rua da Morte”,
rua esta localizada no entorno do parque que tem um nome em homenagem a
uma das vítimas de violência no Capão, Santo Dias, a quem me referi
anteriormente e a quem seus amigos e companheiros rememoram o fato através de
um escrito no asfalto em tinta vermelha. Assim, as narrativas efêmeras escritas
com giz no asfalto, as histórias de violência que ouvi e escrevi, eram a
presença da ausência daqueles que se foram, ou dos que sofreram alguma espécie
de violência.
Nesta cartografia/historiografia através da performance pude perceber
que aquela rua possui a ambivalência de, ao mesmo tempo, representar a morte e
constituir-se como lugar de quem inventa outros modos de vida, em um espaço de
ludicidade. Porque para quem não tem medo ela ainda é a Rua de Brincar. Para
quem alimenta o desejo de resistir à imposição e dureza presentes nas
documentações oficiais noticiadas e registradas, esta rua abriga vida e ainda é
a Rua de Brincar. Para quem efetivou um desejo capaz de modificar o nome
registrado na cartografia oficial, como comprova a placa de identificação (Rua
Arroio do Engenho), grafando-o no corpo desta rua, em suas entranhas de
asfalto, esta ainda é a Rua de Brincar.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
O Altar da Pedra Dormente
Disneylandização Urbana, Perfografia#10_Itaquera/SP_2013
Por
Michel Yakini
Há um enxame de poeira e fiéis de vigília no Altar da Pedra Dormente. As contestações estão enterradas na lama e cobertas de concreto, só nos sobra apagar os rastros e recolher os restos. A varredura segue firme, pra debaixo do tapete verde que ilumina os olhos dos fiéis. O vento se encarrega de espalhar incertezas pros pulmões que agonizam um teto, a fim de se proteger do furacão diário, que anuncia a chegada do Parque de Ilusões.
O terror foi enterrar a memória alheia no santuário. Vai que tinha um sapo? Aí a vaca vai pro brejo. Apagará a aura do veneno-remédio, que nossas princesas semearam com inocência e rancor. O que temos pra hoje? É aquilo que você quiser, oras... Não fique tão bravo... São só princesas, enterrando bonecas no Altar da Pedra Dormente. Que há de mal nisso?
Ao redor, rostos anestesiados olhavam com preguiça e indiferença os rastros e os restos que caminhavam sofridamente até a escalada do santuário. Lá foi deixada a oferenda da ignorância, no barranco dos fundos, invisível aos olhos lunáticos. Os fiéis amaldiçoam qualquer opacidade. Há menos que alguma memória enterrada pela inocência-rancorosa de nossas princesas resolva ressuscitar das profundezas desse mar de lama...
Mas isso seria uma desgraça! Sai zica!
Quanto à poeira... Não se preocupe, não necessita varrer, logo tudo ficará limpo, branquinho, ou melhor, branco no preto, um conto de fadas alvinegro com certificado de dedetização ISO-2014.
O mandatário dessa varredura tem que pagar por isso! Onde já se viu? Varrer o véu da nossa fantasia? Me diga! Quem encomendou esse absurdo?
Logo o Parque de Ilusões ficará pronto e o Altar triunfará reluzente. A História entrará em sono eterno e a Paz-que-eu-não-quero será oficialmente inaugurada. A Centopeia irá levar e trazer o Povo Fiel, a Caixa-de-Brinquedo-e-Hamburguer estará pronta para servir os visitantes e os Habitantes Tolerados viverão em suas torres de lar e vigilância, sem que ninguém incomode a harmonia e o valor forjado a ferro e fogo neste lugar.
Enquanto isso, os fiéis se prostram para que a profecia se cumpra, para nunca mais cair nas desgraças e armadilhas dos que torcem contra, para assim celebrar as grandes vitórias do Povo Fiel, no pleno gozo das colunas sagradas no Altar da Pedra Dormente.
Doa a quem doer...
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Disneylandização Urbana
Disneylandização Urbana, Perfografia#10_Itaquera/SP_2013
Por Thalita Duarte
São Paulo, Itaquera,
Julho de 2013. A bola da vez no Brasil são os megaeventos e em Itaquera seguem
a todo vapor as obras para a construção do estádio que sediará a abertura da
Copa do Mundo FIFA – 2014. Assim como as obras de infraestrutura e de
desenvolvimento econômico do entorno, necessárias para receber milhares de
turistas no extremo leste da capital paulistana.
Próximo ao
estádio situa-se a Comunidade da Paz onde cerca de 240 domicílios ocupam desde
1991 um terreno de propriedade pública pertencente à COHAB-SP. Ocupação que
torna visível a fragilidade das políticas públicas habitacionais na cidade, ao
materializar por iniciativa dos próprios moradores o sonho da casa própria a
partir das ferramentas e materiais que estão à mão: a solidariedade dos
mutirões, os detritos e entulhos, a capacidade criativa e o terreno que deveria
sediar um conjunto habitacional, mas que permanecera em desuso. O déficit de moradias, na cidade de
São Paulo, que deveriam ser oferecidas à população de baixa renda não está nem
perto de ser superado (apontado em cerca de 5,461 milhões em 2011). É
discrepante a diferença entre o que atualmente os governos estão investindo em
obras para a realização da Copa do Mundo no Brasil e o que tem se investido em
moradia social. E, justamente na zona leste da cidade, região mais povoada – e
historicamente negligenciada – de São Paulo, moradores têm seu direito de
acesso à moradia digna duplamente violado. A Comunidade
da Paz está sob a iminência de ser removida da região, mas até o momento,
nenhum dos moradores foi notificado a respeito de qual será o seu destino e se
é que este foi pensado pelas políticas públicas. Apesar disso, os moradores continuam a lutar ativamente
em defesa da comunidade, inclusive através da criação de um Plano Popular
Alternativo de Habitação para a Comunidade da Paz.
Situações como
esta, podem ser entendidas dentro do processo de gentrificação ou enobrecimento urbano, no qual operações urbanas
são adotadas a fim de promover a renovação, requalificação e/ou revitalização
de determinadas regiões da cidade, através da construção de empreendimentos
imobiliários, comerciais e culturais, que teriam o intuito de atrair uma classe
mais abastada e repelir a população de baixa renda ou em situação de rua.
Muitas vezes a contradição mais nefasta deste processo é que quem é alvo da
remoção nestas áreas oferece sua mão de obra para erigir sua própria demolição,
como no caso de Cícero Jailson Ponciano Silva, 39 anos, morador da Comunidade
da Paz e encarregado de armações nas obras do entorno do estádio Itaquerão, que
nos diz: “Quanto mais adianto a obra,
mais perto fico de ser removido”.
Dentro da
perspectiva da gentrificação, podemos relacionar os entendimentos de turistificação das cidades e de disneylandização urbana desenvolvidos
pelas teóricas brasileiras Paola Berenstein Jacques e Fabiana Dultra Britto. O
primeiro, como o próprio nome sugere, valorizaria o turista, sobretudo o
internacional, em detrimento do morador local. Esta valorização se daria
através da construção de uma imagem de cidade acolhedora e prestigiosa como
garantia de segurança para a livre circulação de pessoas e mercadorias. Já o
segundo entendimento, complementar ao primeiro, traz uma imagem para o espaço
urbano que intenta atrair capital e investidores além de turistas, ao partir do
pressuposto de que a cidade se transformaria em algo similar a um parque
temático com seus respectivos roteiros de visitação. No atual caso do Brasil
esta transformação é gerenciada por grandes corporações internacionais como a Fédération
Internationale de Football Association (FIFA) e a Odebrecht.
Neste
descompasso entre as políticas públicas e privadas que intervêm na região de
Itaquera e as condições de vida dos moradores da Comunidade da Paz, pode-se
tomar como parâmetro os conceitos elaborados por Milton Santos (2009) em torno
do que denominou como Zonas Urbanas
Luminosas em contraponto às Zonas
Urbanas Opacas. De maneira sucinta podemos relacionar as Zonas Urbanas
Luminosas às regiões da cidade voltadas à circulação de mercadorias, às
relações de consumo, às classes sociais mais abastadas, aos investidores e aos
turistas; enquanto as Zonas Urbanas Opacas são as áreas da cidade que
desaparecem em relação à luminosidade do capital em circulação, aquilo que não
se enquadra na velocidade desta circulação permanece nestas regiões destinadas
aos desfavorecidos. Deste modo, o que vemos em locais como a Comunidade da Paz
é a ativação de outros usos e finalidades para objetos, técnicas, normas e
afetos na vida social, sobretudo a natureza comunicativa das pessoas que
habitam esta região, a qual difere de maneira explícita dos empreendimentos e
relações que se estabelecem em uma Zona Urbana Luminosa.
Através do
Perfografia, proposta feita pelo Coletivo Parabelo, que almeja reunir a arte da
performance e a cartografia como forma de compor com o espaço urbano em um
processo criativo, foi possível tomar contato com estas contradições e ao mesmo
tempo participar de outras formas de organização e relação com o outro (pessoas,
a terra, a própria cotidianidade). A relação dos integrantes do Coletivo Parabelo com os moradores da
Comunidade da Paz foi estabelecida a partir de uma série de errâncias por
Itaquera que, por força do acaso desembocaram algumas vezes nesta comunidade.
Fato que promoveu o inusitado encontro com um grupo de crianças que brincavam
com fantasias de princesas e super-heróis improvisadas. Formas de vida
como estas é que são removidas, higienizadas, desapropriadas, soterradas pelo
que chamamos acima de gentrificação. A partir disso, nos colocamos a seguinte
questão: O que pode o corpo em estado performático
mover neste contexto?
Através das
experiências vivenciadas em Itaquera, eu juntamente com Bárbara Kanashiro
elaboramos uma ação que intentou problematizar a pergunta acima. Uma
performance intitulada Disneylandização
Urbana em que, vestidas com fantasias das princesas da Disney, Branca de
Neve e Cinderela, caminhamos pelas ruas de Itaquera com um carrinho de mão, uma
pá e uma enxada, rumo ao emblemático estádio do Itaquerão e lá, em pleno
canteiro de obras, enterramos bonecas e bichos de pelúcia, diante de uma
significativa quantidade de torcedores corinthianos, apaixonados pelo seu time,
que aos finais de semana tem a oportunidade de prestigiar a construção da
“casa” do “todo poderoso timão”.
Nesta
performance deslocamos do seu significado habitual ícones do imaginário dos
contos de fada, princesas que deveriam ser delicadas carregam pesados
instrumentos comuns ao trabalho masculino, como o carrinho de mão, a pá e a
enxada; princesas que deveriam ser frágeis e generosas cavam um buraco e
enterram brinquedos. Esta sobreposição entre o que convencionalmente se
considera como pertencente ao universo masculino e o arquétipo da princesa,
vinculado ao universo feminino, pode suscitar um estranhamento que tornaria
aparente as contradições relativas ao processo de disneylandização deste local: um empreendimento esportivo e
turístico que soterra centenas de histórias de vida, em nome de um conto de
fadas, o espetáculo do futebol.
Enquanto
caminhávamos, princesas operárias, pelas ruas de Itaquera,
sentíamos um misto de curiosidade por parte dos transeuntes, amorosidade por parte
das crianças que passavam e cogitavam a possibilidade da distribuição dos
brinquedos como demonstração da bondade das princesas; e um misto de
estranhamento e repulsa por parte dos visitantes do estádio ao lidar com a
imagem preestabelecida de princesa da Disney em contraposição à ação proposta.
Comentários como “Que porra é essa?”, frase comumente ouvida pelos integrantes
do Coletivo Parabelo em suas ações, podem provocar deslocamentos da percepção
do transeunte/participante em relação aos seus hábitos e certezas e, assim, dar
uma efêmera visibilidade a questões como as que estão escondidas atrás das “cortinas”
que encobrem os paradoxos da realização de uma copa do mundo no país.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Fruta de feira tem gosto de história
Por Michel
Yakini
![]() | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Nossa Senhora da Feira ou Africanizando Márcia X, Perfografia#8_Pirituba/SP, 2013 |
Era um dia daqueles. Feira no
auge, circulação a mil, quem compra, quem vende, quem passa, quem pede, quem
nega. Quando Nossa Senhora da Feira surgiu entre nós houve quem confiasse a ela
a beleza do dia, uns ajoelharam em pensamento, outros olharam como quem visse o
cramulhão em pessoa, fugiram assustados, temendo memórias de pipoca e leite
condensado, pois o estranho é mesmo estranho nessas horas.
Na digna compreensão de uma
santa, Nossa Senhora da Feira fez o que devia ser feito, subiu em seu altar
pagão, entre oferendas de pastéis e caldo de cana, se ritualizou e exalou a
benção do estranhamento no ar. Dizem que ela é mesmo a santa das causas
estranhas, que aparece quando rezamos um “Paitrão Nosso” com fervor em
procissão, e assim foi...
A graça de Nossa Senhora da Feira
derramou sensibilidade em algumas pessoas, que resolveram dedicar seus
sentimentos aos céus, para brilhar como estrelas, voar por aí, mandar um recado
ao amigo perdido. Há quem tenha deixado de lado a sacola, a oferta, o master
card, para cometer o pecado da tartaruga, parar um minuto na feira que anda
mil, soltar cores no ar, fazer um arco-íris de balões, ou seriam as lágrimas
que escorriam e ganhavam asas na eternidade? A saudade é um passarinho, que
mesmo quando não vemos, canta pra dizer que está ali, pertinho de nós, pra
anunciar o giro dos tempos.
Estava chegando Abril, talvez
fosse esse o segredo. Dizem que na cultura chinesa é tradição que nessa época
as Queixas, mulheres sagradas, venham para as praças e feiras oferecem o néctar
do seu silêncio aos homens. Para que eles provem até se esbaldar, fiquem de
barriga cheia, extasiados e preguiçosos, assim as Queixas escorrem seu néctar
entre as sobras, entre os restos, para que todos vejam e compreendam seu
silêncio escondido em belas maquiagens. Essa revelação é temida pelo povo, pois
anuncia tempos de fome, seca, miséria.
Foi batata! Tempos depois, edificou-se
o Império da Miss Xepa, meio homem, meio mulher, contemplada pelos cachorros,
desfilando pomposa entre os detritos, o circo sem pão, o flash do facebook, que
tecla com voracidade, como se comesse um suculento bife de primeira. A musa dos
desesperados, o riso dos banguelas. Impiedosa, sorriu a todos como uma digna
miss da situação alheia, pois ela quer destaque, quer ser e existir, nem que
pra isso estique seu próprio tapete na passarela do caos, no desmontar das
barracas.
Sem perder tempo, eis que surgiu
o remédio dos pobres e esquecidos. De prontidão, com sua bolsa Luis Vitão, seu
terninho importado de Cuba e comprado na Oscar Freire, a nossa presidenta
anunciou a solução: a Bolsa Xepa. Como é do povo e gosta do povo, tanto que
fala com ovo na boca, ela mesma veio fazer o lançamento do programa, fazer o
piquenique de lançamento do programa, com direito a Hino Nacional e degustação
de pêssegos meia boca. Ninguém aderiu, quando a esmola é demais o santo
desconfia, mas muitos ficaram com vontade, quiseram saber a boca pequena, por
qual motivo a excelentíssima veio ficar entre nós, sem lenço e sem documento,
se igualando, no País de Todos. Belo exemplo.
E como a feira, tudo acabou e
voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido, só um borrão na memória, um
risco no ar, palavras ao chão, era pra ser assim, assim foi. Tudo virou
história, sugestão de rima, prato cheio pra poeta fabular, escrever e cantar,
pois na verdade, na verdade, não quero lhe assustar e nem mesmo lhe enganar,
pois li essa epopeia de Santa, Bexiga, Queixa, Bolsa e Miss, pendurada no meio
da feira, parecendo um chafariz pregado na passagem, num tal de Sarau Varal.
Tudo isso é vento que cruza a estrada, a gente sente e nem dá conta do
apostado, pois mesmo sem perceber já ficou ventado.
(Com)partilhar o aqui e o agora: o corpo-ágora
Por Bárbara Kanashiro
![]() |
| Queixa, Perfografia#8_Pirituba/SP, 2013 |
Na edição do Perfografia#8_Pirituba/SP,
pode-se dizer que experimentamos diferentes modalidades de partilha do
sensível. Jacques Rancière propõe este conceito dentro de um contexto em
que discute as relações entre política e estética, de modo que existiria uma
estética na base da política exatamente porque há na base da organização do que
ele chama de comum uma dimensão eminentemente estética.
Para
o autor, partilha do sensível seria:
O sistema de evidências que
revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele
definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa portanto,
ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição
das partes e dos lugares se fundem numa partilha de espaços, tempos e tipos de
atividades que determina propriamente a maneira como um comum se presta
à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha. (2009, RANCIÈRE)
Podemos
entender o comum como o espaço onde os sujeitos constituem sua
subjetividade, a qual é constituída sempre socialmente e, portanto,
necessariamente política. A dimensão estética do comum está na medida em
que este se organiza como uma divisão dos modos de ser e de fazer, de
competências e habilidades.
Dessa
forma, a partilha do sensível atua de modo a dar visibilidade a quem
pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do
espaço em que determinada atividade se exerce. Por exemplo, pode-se questionar
como o sistema de arte identifica e legitima os modos de produção tanto na
esfera micro quanto macropolítica.
O
chamado “coletivismo artístico” é considerado um movimento que se contrapõe às
formas normatizadas pelo sistema de arte e que, no Brasil, é localizado
principalmente na década de 90, com o advento do neoliberalismo. Entretanto, as
chamadas vanguardas históricas já desenvolviam projetos em conjunto no início
do século XX, como o Cabaret Voltaire Dada, as sínteses futuristas e a
LEF (Frente de Esquerda das Artes) dos construtivistas russos.
Ao
propor outras distribuições das maneiras de fazer e das ocupações sociais
(Rancière faz referência a Platão, que entende que o princípio de uma sociedade
bem organizada é que cada um faça apenas uma coisa, aquela a qual a sua
“natureza” o destina), essas iniciativas coletivas e os coletivos artísticos
promovem partilhas do sensível, porque criam possibilidades de perceber, de
experimentar e de organizar o comum.
Nesse
sentido, o Coletivo Parabelo propõe coletividades temporárias por onde
passa, porque promove agenciamentos efêmeros e descentralizados na esfera do comum,
ao atuar na fronteira do visível e do invisível das relações sociais. Aproxima-se
do entendimento de Zonas Autônomas Temporárias (TAZ) de Hakim Bey, compreendida
pelo autor como “a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos
para buscarem liberdade”. Entretanto, adverte Bey, “assim que a TAZ é nomeada
(representada, mediada), ela deve desaparecer, ela vai desaparecer,
deixando para trás um invólucro vazio e brotará novamente em outro lugar,
novamente invisível, porque é indefinível pelos termos do Espetáculo”.
Essa
tendência ao agrupamento se verificou no Coletivo Parabelo da Corrente, coletividade
temporária criada entre o Coletivo Parabelo e o Sarau Elo da Corrente.
Esses coletivos que trabalham com performance e literatura, respectivamente, se
permitiram sair do lugar de origem para originar um terceiro, um terreno onde o
corpo erraria a ponto de criar narrativas ambulantes.
Neste
terreno, a cidade é um lugar privilegiado de atuação, o que tem a ver
intimamente com os interesses e trajetórias de cada um. O deslocamento da obra
de arte das instituições especializadas para espaços não-convencionais, bem
como a diluição da fronteira entre arte e vida e a possibilidade de tornar
viável outras formas de ser e estar no mundo aparecem potencializados na
relação com a cidade. Esta pode ser entendida como um espaço social
constantemente disputado por diferentes estruturas de poder, as quais são
atualizadas de acordo com os contratos e modos de vida que ali se estabelecem.
Por
exemplo, em Nossa Senhora da Feira ou Africanizando Márcia X, realizada
na feira de Monte Alegre em Pirituba, pode-se dizer que a ação de caminhar
vestida de santa e se besuntar com leite condensado e pipoca provocou uma
reconfiguração das partilhas do sensível, à medida que desloca a figura da
santa de um contexto judaico-cristão para a feira, lugar estabelecido para
compra e venda de mercadorias. Dessa forma, Nossa Senhora da Feira provoca
dissensos em torno da sacralidade da religião e da própria obra de arte e
convoca o consumidor a participar de um ritual profano, entoando dizeres como
“Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós credores, cobrai-nos mesmo após a
morte, amém”.
A
possibilidade de provocar dissensos, disseminar dissonâncias de ordem
econômica, social, emocional, ideológica, identitária,
sexual, política, estética e racial, entre outras, é
uma característica que Eleonora Fabião atribui ao performer,
designado como complicador cultural. O Coletivo Parabelo vai se
interessar pela fricção do corpo desse complicador cultural com a cidade
através da performance, como em Queixa. Uma mulher vestida de gueixa
oferece melancias em forma de vulva aos homens frequentadores da feira,
evocando reações de espanto, desprezo, comoção e até mesmo narrativas
enunciadas por uma mulher, que explica o trabalho como um ritual em que uma
chinesa é violentada e oferece os frutos de seu ventre aos homens.
Essa
dimensão estética e política que emerge da relação entre corpo, cidade e
performance pode sugerir um corpo-ágora: um corpo que convoca a reunião
dos cidadãos em praça pública para discutir questões prementes no aqui-agora,
turbinando a relação do cidadão com a pólis. Entretanto, o cidadão que o corpo-ágora
solicita é deveras distinto daquele das cidades-estado, pois no entendimento
que propomos, as vozes que enunciam o discurso são as dos praticantes
ordinários da cidade: mulheres, homens, crianças, feirantes, vendedores ambulantes,
pessoas em situação de rua, imigrantes, indígenas, moradores do bairro de
Pirituba. A visibilidade dos conflitos que perpassam o cotidiano, às vezes
abafados pela automatização da vida, ativa o que está embrutecido em nós: a
possibilidade de reconhecer o outro como um interlocutor de nós mesmos. Essa
experiência de alteridade, ao mesmo tempo em que legitima o lugar do outro, o
convida a tomar parte da situação, testando formas possíveis de diálogo, troca
e participação que são realizadas no comum. É neste sensível
(com)partilhado que reside a potência da performance.
Assinar:
Postagens (Atom)

%231_Perfografia%2312_Ja%C3%A7an%C3%A34.jpg)




