| Arru(ação)#1 Perfografia Edição#3 Vila Galvão_Guarulhos/SP |
Por Denise Rachel
A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas.
(João do Rio)
Atravessar. Atravessar a rua. A travessia dos sentidos aguçados pelo vibrátil da vida entrecruzada por linhas de força. Linhas duras. Flexíveis. Linhas de fuga. Atravessar e alcançar a terceira margem. O entre. O meio. O esforço para subverter o concreto que pode oprimir e ditar regras aparentemente intransponíveis. Mas prudência. O cuidado de si para enfrentar o risco até o limiar. A terceira margem do rio não necessariamente transcende o concreto, mas presentifica outras possibilidades de lidar com a matéria-prima da realidade. A rua é um rio cartografado e registrado por guias, mapas, roteiros, placas, sinalizações, signos que podem ser reelaborados assim que despontar o desejo. Desejo como o rio que tudo arrasta está premido pelas margens que impõem limites a sua jornada que, sem estes, poderia se configurar destrutiva.
Os performers-cartógrafos urbanos caminham pelo entorno do Lago dos Patos, Vila Galvão, na cidade de Guarulhos. Ar ameno, ir e vir de pedalinhos, patos, marrecos, tartarugas que se refugiam das águas no sol em uma ilhazinha artificial cercada por casarões, prédios, museu, teatro, biblioteca e, no horizonte de uma das travessas, bem ao fundo, o morro e a favela. Iniciou, neste sábado ensolarado, a terceira edição de Perfografia, perscrutando desejos em busca de estratégias para concretizá-los a partir de um roteiro de preocupações. Preocupações estas desenhadas pelo diálogo entre a subjetividade e o ambiente, o eu e o outro, o qual compõe as tradições e contradições do contexto urbano da grande São Paulo. Megalópole desenfreada, ativa e reativa nos contrastantes parâmetros de normalidade programados por um sistema regido, grosso modo, através do artifício do lucro e do luxo. Lucro para poucos, os “escolhidos” para efetuar a exploração da força de trabalho dos “excluídos”. Ambos, “escolhidos” e “excluídos” doutrinados por um discurso povoado por sentenças como: “Ordem e progresso”, “Você não pode perder!”, “Abra a felicidade”, “O ministério da saúde adverte”... Desejo e fetiche, público e privado, proibido e permitido, vida e arte, contrapontos pré-fabricados pelas mercadorias que colonizam a subjetividade de ambos, “escolhidos” e “excluídos”.
Neste Perfografia Edição#3 Vila Galvão_Guarulhos/SP, a performance como linguagem atravessa a rua, o rio, a vida cotidiana na construção de vocabulários como possibilidade de criação de outros mundos, multifacetados e não unificados a partir de um objetivo único. A ação micropolítica de pensar modos de viver diversos do que está posto. A escuta do corpo vibrátil, a ativação da sensibilidade para reconfigurar o estar no mundo no instante presente. Os performers-cartógrafos urbanos atravessam, recolhem, refletem, desenham linhas de fuga a partir do concreto: carregar paralelepípedos enquanto caminha em torno do lago, escovar os dentes na calçada, provar o líquido de garrafas jogadas no lixo, vomitar flores... Imagens, ações, sensações que atravessam e interrompem o fluxo cotidiano do rio, o trânsito atônito para e interpela, vai e volta em um espasmo de dúvida, de vida que volta a fluir de outra forma.
A rua não é cenário, a rua não é cinema nem quadro para ser apenas contemplada por uns, executada por outros. A rua pulsa. Rio vibrátil que traça linhas no tempo-espaço em devir. Tempo-espaço aberto à diversidade de grafias, grafismos, cartografias, roteiros, linhas traçadas a mão livre, a céu aberto, a partir de matéria acessível aos sentidos de quem faz, vê, participa, indaga, imagina outras linhas e outras possibilidades. Tempo-espaço multifacetado que escoa a favor e contra a corrente, arrastando, modificando, variáveis que partem de um princípio – corpo em movimento, corpo em relação – vital, ético, estético, que configura e desconfigura parâmetros e padrões. Rio nascente de possibilidades.