quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Gesto Poético

Sonho de Consumo, Bárbara Kanashiro e Carminda Mendes André,  Barra Funda, 2012



Por Carminda Mendes André 

O COLETIVO PARABELO poderia muito bem criar uma cartografia de violências que gera e sofre no trajeto de seu caminhar. Alguns dizem que o coletivo “arruma confusão” por onde passa. E é verdade. Mas não porque, intencionalmente, como os revolucionários da minha geração faziam colocando bombas em carros e estabelecimentos para chamar a atenção do horror da ditadura em que estávamos mergulhados. Eles parecem mais próximos dos pacifistas do que dos rebeldes partidários em que fui formada. Os tempos são outros? Penso que a ditadura mudou de figurino, mudou de discurso, mudou de cara e precisa de outros dispositivos para ser afastada de nossas vidas. O COLETIVO PARABELO arruma confusão por onde passa porque seu trabalho artístico é também trabalho ético. Trabalho para a emancipação dos corpos nos moldes de que nos fala tão lindamente Jacques Rancière em seu brilhante Mestre Ignorante. O emancipado é alguém que age como autodidata, age com seus modos de pensamentos sem a tutoria de alguém que o diz como fazer. O emancipado, por não estar amarrado aos moldes das normatizações, acaba por confrontar-se com a vida fascista que está camuflada de cordeiro da segurança. O COLETIVO PARABELO, ao inventar suas perfografias, reinventa os percursos, que reinventa os corpos, que nomadiza as identidades. Quem segue perfografando com esse COLETIVO tem a grande chance de se perder de si mesma (desterritorializar-se como nos ensina Diego) para nos reinventar em outro lugar de nós mesmas. Exercitar o corpo nas zonas opacas, nos cantos escuros da cidade espetacularizada pode ser um modo de trazer de volta o “tesão” pelo viver; a coragem de continuar os exercícios para os cuidados de si e performar mesmo em solidão. Com eles não achamos saídas para os horrores, mas atalhos que podem nos levar a outros mundos. Com esses jovens artistas pude olhar certos traumas da civilização que herdamos e que não sabemos como encarar. Doloroso e, ao mesmo tempo, emancipador foi o atravessamento que sofri junto com os “parabélicos” que é como gosto de chamá-los.