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| Sonho de Consumo, Bárbara Kanashiro e Carminda Mendes André, Barra Funda, 2012 |
Por Carminda Mendes André
O COLETIVO PARABELO poderia muito
bem criar uma cartografia de violências que gera e sofre no trajeto de seu
caminhar. Alguns dizem que o coletivo “arruma confusão” por onde passa. E é
verdade. Mas não porque, intencionalmente, como os revolucionários da minha
geração faziam colocando bombas em carros e estabelecimentos para chamar a
atenção do horror da ditadura em que estávamos mergulhados. Eles parecem mais
próximos dos pacifistas do que dos rebeldes partidários em que fui formada. Os
tempos são outros? Penso que a ditadura mudou de figurino, mudou de discurso,
mudou de cara e precisa de outros dispositivos para ser afastada de nossas vidas. O COLETIVO PARABELO arruma
confusão por onde passa porque seu trabalho artístico é também trabalho ético.
Trabalho para a emancipação dos corpos nos moldes de que nos fala tão
lindamente Jacques Rancière em seu brilhante Mestre Ignorante. O emancipado é alguém que age como autodidata,
age com seus modos de pensamentos sem a tutoria de alguém que o diz como fazer.
O emancipado, por não estar amarrado aos moldes das normatizações, acaba por
confrontar-se com a vida fascista que está camuflada de cordeiro da segurança.
O COLETIVO PARABELO, ao inventar suas perfografias, reinventa os percursos, que
reinventa os corpos, que nomadiza as identidades. Quem segue perfografando com
esse COLETIVO tem a grande chance de se perder de si mesma
(desterritorializar-se como nos ensina Diego) para nos reinventar em outro
lugar de nós mesmas. Exercitar o corpo nas zonas opacas, nos cantos escuros da
cidade espetacularizada pode ser um modo de trazer de volta o “tesão” pelo
viver; a coragem de continuar os exercícios para os cuidados de si e performar
mesmo em solidão. Com eles não achamos saídas para os horrores, mas atalhos que
podem nos levar a outros mundos. Com esses jovens artistas pude olhar certos
traumas da civilização que herdamos e que não sabemos como encarar. Doloroso e,
ao mesmo tempo, emancipador foi o atravessamento que sofri junto com os
“parabélicos” que é como gosto de chamá-los.
