Por Denise Rachel.
Um retorno ao bairro do Belém sob uma perspectiva psicogeográfica, quase um ano após a realização do espetáculo intervenção “Peça Coração” (junho-agosto 2010), no Largo São José do Belém – ponto de convergência do centro comercial do bairro – possibilitou diferentes formas de contato com este espaço (ampliado para além das delimitações do Largo) e com suas peculiaridades
A primeira e talvez principal modificação deste contato com o bairro, se refere à mudança de abordagem estética em relação ao espaço urbano, não mais encarada como a construção de um espetáculo intervenção ligado ao conceito de teatro performativo, mas agora assumindo a performance como linguagem. Através desta linguagem híbrida, focada no instante e no verbo presentificado em ação, foi possível redesenhar espaços de trânsito, proporcionar experiências de liminaridade, articular visões higienistas e de empreendimento imobiliário às narrativas poéticas grafadas em giz no solo impregnado de tramas e trajetórias. O trajeto construído atravessou ruas e obstáculos entre o que separa a representação teatral da ação, do verbo presente no tempo e no espaço, no corpo como potência e sensibilidade para a síntese de discursos
O sol escaldante que fustigou o corpo envolto por jornal de classificados de imóveis, as linhas vermelhas que recortaram o terminal urbano, o tecido branco que dividiu o viaduto morada de pessoas em situação de rua, casas, prédios e anúncios imobiliários, a janela deslocada de seu local habitual, constituíram uma trama de sentidos que gerou as mais diversas reações, a quebra de expectativas, a relação não hierárquica com o espaço e os sujeitos que nele estavam presentes. Essa trama causou incomodo, acionou autoridades responsáveis por manter a ordem e defender a propriedade privada, instigou o debate entre autoridade, artista e proprietário no qual, surpreendentemente, o direito à liberdade de expressão prevaleceu
Assumir a performance como linguagem foi a dissolução de um embate estético e ideológico que perpassa a história do Coletivo Parabelo na busca por um diálogo efetivo entre arte e vida, um “dizer para o mundo” pautado em relações concretas, uma fusão de linguagens artísticas que amplia as possibilidades de criação e estimula a quebra de padrões estéticos em uma zona autônoma temporária de pensamento e atitude diante de si e do outro. Dessa forma, a rua tornou-se espaço de experimentação, potência de relações, disparadora de discussões a respeito do que atinge, o que afeta nossa subjetividade inserida no tempo/espaço/sistema da metrópole. Ação e reflexão desencadeadas pelo fluxo, pelo devir da cidade.