quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Disneylandização Urbana


Disneylandização Urbana, Perfografia#10_Itaquera/SP_2013



Por Thalita Duarte

São Paulo, Itaquera, Julho de 2013. A bola da vez no Brasil são os megaeventos e em Itaquera seguem a todo vapor as obras para a construção do estádio que sediará a abertura da Copa do Mundo FIFA – 2014. Assim como as obras de infraestrutura e de desenvolvimento econômico do entorno, necessárias para receber milhares de turistas no extremo leste da capital paulistana.

Próximo ao estádio situa-se a Comunidade da Paz onde cerca de 240 domicílios ocupam desde 1991 um terreno de propriedade pública pertencente à COHAB-SP. Ocupação que torna visível a fragilidade das políticas públicas habitacionais na cidade, ao materializar por iniciativa dos próprios moradores o sonho da casa própria a partir das ferramentas e materiais que estão à mão: a solidariedade dos mutirões, os detritos e entulhos, a capacidade criativa e o terreno que deveria sediar um conjunto habitacional, mas que permanecera em desuso. O déficit de moradias, na cidade de São Paulo, que deveriam ser oferecidas à população de baixa renda não está nem perto de ser superado (apontado em cerca de 5,461 milhões em 2011). É discrepante a diferença entre o que atualmente os governos estão investindo em obras para a realização da Copa do Mundo no Brasil e o que tem se investido em moradia social. E, justamente na zona leste da cidade, região mais povoada – e historicamente negligenciada – de São Paulo, moradores têm seu direito de acesso à moradia digna duplamente violado. A Comunidade da Paz está sob a iminência de ser removida da região, mas até o momento, nenhum dos moradores foi notificado a respeito de qual será o seu destino e se é que este foi pensado pelas políticas públicas. Apesar disso, os moradores continuam a lutar ativamente em defesa da comunidade, inclusive através da criação de um Plano Popular Alternativo de Habitação para a Comunidade da Paz.

Situações como esta, podem ser entendidas dentro do processo de gentrificação ou enobrecimento urbano, no qual operações urbanas são adotadas a fim de promover a renovação, requalificação e/ou revitalização de determinadas regiões da cidade, através da construção de empreendimentos imobiliários, comerciais e culturais, que teriam o intuito de atrair uma classe mais abastada e repelir a população de baixa renda ou em situação de rua. Muitas vezes a contradição mais nefasta deste processo é que quem é alvo da remoção nestas áreas oferece sua mão de obra para erigir sua própria demolição, como no caso de Cícero Jailson Ponciano Silva, 39 anos, morador da Comunidade da Paz e encarregado de armações nas obras do entorno do estádio Itaquerão, que nos diz: “Quanto mais adianto a obra, mais perto fico de ser removido”.

Dentro da perspectiva da gentrificação, podemos relacionar os entendimentos de turistificação das cidades e de disneylandização urbana desenvolvidos pelas teóricas brasileiras Paola Berenstein Jacques e Fabiana Dultra Britto. O primeiro, como o próprio nome sugere, valorizaria o turista, sobretudo o internacional, em detrimento do morador local. Esta valorização se daria através da construção de uma imagem de cidade acolhedora e prestigiosa como garantia de segurança para a livre circulação de pessoas e mercadorias. Já o segundo entendimento, complementar ao primeiro, traz uma imagem para o espaço urbano que intenta atrair capital e investidores além de turistas, ao partir do pressuposto de que a cidade se transformaria em algo similar a um parque temático com seus respectivos roteiros de visitação. No atual caso do Brasil esta transformação é gerenciada por grandes corporações internacionais como a Fédération Internationale de Football Association (FIFA) e a Odebrecht.

Neste descompasso entre as políticas públicas e privadas que intervêm na região de Itaquera e as condições de vida dos moradores da Comunidade da Paz, pode-se tomar como parâmetro os conceitos elaborados por Milton Santos (2009) em torno do que denominou como Zonas Urbanas Luminosas em contraponto às Zonas Urbanas Opacas. De maneira sucinta podemos relacionar as Zonas Urbanas Luminosas às regiões da cidade voltadas à circulação de mercadorias, às relações de consumo, às classes sociais mais abastadas, aos investidores e aos turistas; enquanto as Zonas Urbanas Opacas são as áreas da cidade que desaparecem em relação à luminosidade do capital em circulação, aquilo que não se enquadra na velocidade desta circulação permanece nestas regiões destinadas aos desfavorecidos. Deste modo, o que vemos em locais como a Comunidade da Paz é a ativação de outros usos e finalidades para objetos, técnicas, normas e afetos na vida social, sobretudo a natureza comunicativa das pessoas que habitam esta região, a qual difere de maneira explícita dos empreendimentos e relações que se estabelecem em uma Zona Urbana Luminosa.

Através do Perfografia, proposta feita pelo Coletivo Parabelo, que almeja reunir a arte da performance e a cartografia como forma de compor com o espaço urbano em um processo criativo, foi possível tomar contato com estas contradições e ao mesmo tempo participar de outras formas de organização e relação com o outro (pessoas, a terra, a própria cotidianidade). A relação dos integrantes do Coletivo Parabelo com os moradores da Comunidade da Paz foi estabelecida a partir de uma série de errâncias por Itaquera que, por força do acaso desembocaram algumas vezes nesta comunidade. Fato que promoveu o inusitado encontro com um grupo de crianças que brincavam com fantasias de princesas e super-heróis improvisadas. Formas de vida como estas é que são removidas, higienizadas, desapropriadas, soterradas pelo que chamamos acima de gentrificação. A partir disso, nos colocamos a seguinte questão: O que pode o corpo em estado performático mover neste contexto?

Através das experiências vivenciadas em Itaquera, eu juntamente com Bárbara Kanashiro elaboramos uma ação que intentou problematizar a pergunta acima. Uma performance intitulada Disneylandização Urbana em que, vestidas com fantasias das princesas da Disney, Branca de Neve e Cinderela, caminhamos pelas ruas de Itaquera com um carrinho de mão, uma pá e uma enxada, rumo ao emblemático estádio do Itaquerão e lá, em pleno canteiro de obras, enterramos bonecas e bichos de pelúcia, diante de uma significativa quantidade de torcedores corinthianos, apaixonados pelo seu time, que aos finais de semana tem a oportunidade de prestigiar a construção da “casa” do “todo poderoso timão”.

Nesta performance deslocamos do seu significado habitual ícones do imaginário dos contos de fada, princesas que deveriam ser delicadas carregam pesados instrumentos comuns ao trabalho masculino, como o carrinho de mão, a pá e a enxada; princesas que deveriam ser frágeis e generosas cavam um buraco e enterram brinquedos. Esta sobreposição entre o que convencionalmente se considera como pertencente ao universo masculino e o arquétipo da princesa, vinculado ao universo feminino, pode suscitar um estranhamento que tornaria aparente as contradições relativas ao processo de disneylandização deste local: um empreendimento esportivo e turístico que soterra centenas de histórias de vida, em nome de um conto de fadas, o espetáculo do futebol.

Enquanto caminhávamos, princesas operárias, pelas ruas de Itaquera, sentíamos um misto de curiosidade por parte dos transeuntes, amorosidade por parte das crianças que passavam e cogitavam a possibilidade da distribuição dos brinquedos como demonstração da bondade das princesas; e um misto de estranhamento e repulsa por parte dos visitantes do estádio ao lidar com a imagem preestabelecida de princesa da Disney em contraposição à ação proposta. Comentários como “Que porra é essa?”, frase comumente ouvida pelos integrantes do Coletivo Parabelo em suas ações, podem provocar deslocamentos da percepção do transeunte/participante em relação aos seus hábitos e certezas e, assim, dar uma efêmera visibilidade a questões como as que estão escondidas atrás das “cortinas” que encobrem os paradoxos da realização de uma copa do mundo no país.