Disneylandização Urbana, Perfografia#10_Itaquera/SP_2013
Por Thalita Duarte
São Paulo, Itaquera,
Julho de 2013. A bola da vez no Brasil são os megaeventos e em Itaquera seguem
a todo vapor as obras para a construção do estádio que sediará a abertura da
Copa do Mundo FIFA – 2014. Assim como as obras de infraestrutura e de
desenvolvimento econômico do entorno, necessárias para receber milhares de
turistas no extremo leste da capital paulistana.
Próximo ao
estádio situa-se a Comunidade da Paz onde cerca de 240 domicílios ocupam desde
1991 um terreno de propriedade pública pertencente à COHAB-SP. Ocupação que
torna visível a fragilidade das políticas públicas habitacionais na cidade, ao
materializar por iniciativa dos próprios moradores o sonho da casa própria a
partir das ferramentas e materiais que estão à mão: a solidariedade dos
mutirões, os detritos e entulhos, a capacidade criativa e o terreno que deveria
sediar um conjunto habitacional, mas que permanecera em desuso. O déficit de moradias, na cidade de
São Paulo, que deveriam ser oferecidas à população de baixa renda não está nem
perto de ser superado (apontado em cerca de 5,461 milhões em 2011). É
discrepante a diferença entre o que atualmente os governos estão investindo em
obras para a realização da Copa do Mundo no Brasil e o que tem se investido em
moradia social. E, justamente na zona leste da cidade, região mais povoada – e
historicamente negligenciada – de São Paulo, moradores têm seu direito de
acesso à moradia digna duplamente violado. A Comunidade
da Paz está sob a iminência de ser removida da região, mas até o momento,
nenhum dos moradores foi notificado a respeito de qual será o seu destino e se
é que este foi pensado pelas políticas públicas. Apesar disso, os moradores continuam a lutar ativamente
em defesa da comunidade, inclusive através da criação de um Plano Popular
Alternativo de Habitação para a Comunidade da Paz.
Situações como
esta, podem ser entendidas dentro do processo de gentrificação ou enobrecimento urbano, no qual operações urbanas
são adotadas a fim de promover a renovação, requalificação e/ou revitalização
de determinadas regiões da cidade, através da construção de empreendimentos
imobiliários, comerciais e culturais, que teriam o intuito de atrair uma classe
mais abastada e repelir a população de baixa renda ou em situação de rua.
Muitas vezes a contradição mais nefasta deste processo é que quem é alvo da
remoção nestas áreas oferece sua mão de obra para erigir sua própria demolição,
como no caso de Cícero Jailson Ponciano Silva, 39 anos, morador da Comunidade
da Paz e encarregado de armações nas obras do entorno do estádio Itaquerão, que
nos diz: “Quanto mais adianto a obra,
mais perto fico de ser removido”.
Dentro da
perspectiva da gentrificação, podemos relacionar os entendimentos de turistificação das cidades e de disneylandização urbana desenvolvidos
pelas teóricas brasileiras Paola Berenstein Jacques e Fabiana Dultra Britto. O
primeiro, como o próprio nome sugere, valorizaria o turista, sobretudo o
internacional, em detrimento do morador local. Esta valorização se daria
através da construção de uma imagem de cidade acolhedora e prestigiosa como
garantia de segurança para a livre circulação de pessoas e mercadorias. Já o
segundo entendimento, complementar ao primeiro, traz uma imagem para o espaço
urbano que intenta atrair capital e investidores além de turistas, ao partir do
pressuposto de que a cidade se transformaria em algo similar a um parque
temático com seus respectivos roteiros de visitação. No atual caso do Brasil
esta transformação é gerenciada por grandes corporações internacionais como a Fédération
Internationale de Football Association (FIFA) e a Odebrecht.
Neste
descompasso entre as políticas públicas e privadas que intervêm na região de
Itaquera e as condições de vida dos moradores da Comunidade da Paz, pode-se
tomar como parâmetro os conceitos elaborados por Milton Santos (2009) em torno
do que denominou como Zonas Urbanas
Luminosas em contraponto às Zonas
Urbanas Opacas. De maneira sucinta podemos relacionar as Zonas Urbanas
Luminosas às regiões da cidade voltadas à circulação de mercadorias, às
relações de consumo, às classes sociais mais abastadas, aos investidores e aos
turistas; enquanto as Zonas Urbanas Opacas são as áreas da cidade que
desaparecem em relação à luminosidade do capital em circulação, aquilo que não
se enquadra na velocidade desta circulação permanece nestas regiões destinadas
aos desfavorecidos. Deste modo, o que vemos em locais como a Comunidade da Paz
é a ativação de outros usos e finalidades para objetos, técnicas, normas e
afetos na vida social, sobretudo a natureza comunicativa das pessoas que
habitam esta região, a qual difere de maneira explícita dos empreendimentos e
relações que se estabelecem em uma Zona Urbana Luminosa.
Através do
Perfografia, proposta feita pelo Coletivo Parabelo, que almeja reunir a arte da
performance e a cartografia como forma de compor com o espaço urbano em um
processo criativo, foi possível tomar contato com estas contradições e ao mesmo
tempo participar de outras formas de organização e relação com o outro (pessoas,
a terra, a própria cotidianidade). A relação dos integrantes do Coletivo Parabelo com os moradores da
Comunidade da Paz foi estabelecida a partir de uma série de errâncias por
Itaquera que, por força do acaso desembocaram algumas vezes nesta comunidade.
Fato que promoveu o inusitado encontro com um grupo de crianças que brincavam
com fantasias de princesas e super-heróis improvisadas. Formas de vida
como estas é que são removidas, higienizadas, desapropriadas, soterradas pelo
que chamamos acima de gentrificação. A partir disso, nos colocamos a seguinte
questão: O que pode o corpo em estado performático
mover neste contexto?
Através das
experiências vivenciadas em Itaquera, eu juntamente com Bárbara Kanashiro
elaboramos uma ação que intentou problematizar a pergunta acima. Uma
performance intitulada Disneylandização
Urbana em que, vestidas com fantasias das princesas da Disney, Branca de
Neve e Cinderela, caminhamos pelas ruas de Itaquera com um carrinho de mão, uma
pá e uma enxada, rumo ao emblemático estádio do Itaquerão e lá, em pleno
canteiro de obras, enterramos bonecas e bichos de pelúcia, diante de uma
significativa quantidade de torcedores corinthianos, apaixonados pelo seu time,
que aos finais de semana tem a oportunidade de prestigiar a construção da
“casa” do “todo poderoso timão”.
Nesta
performance deslocamos do seu significado habitual ícones do imaginário dos
contos de fada, princesas que deveriam ser delicadas carregam pesados
instrumentos comuns ao trabalho masculino, como o carrinho de mão, a pá e a
enxada; princesas que deveriam ser frágeis e generosas cavam um buraco e
enterram brinquedos. Esta sobreposição entre o que convencionalmente se
considera como pertencente ao universo masculino e o arquétipo da princesa,
vinculado ao universo feminino, pode suscitar um estranhamento que tornaria
aparente as contradições relativas ao processo de disneylandização deste local: um empreendimento esportivo e
turístico que soterra centenas de histórias de vida, em nome de um conto de
fadas, o espetáculo do futebol.
Enquanto
caminhávamos, princesas operárias, pelas ruas de Itaquera,
sentíamos um misto de curiosidade por parte dos transeuntes, amorosidade por parte
das crianças que passavam e cogitavam a possibilidade da distribuição dos
brinquedos como demonstração da bondade das princesas; e um misto de
estranhamento e repulsa por parte dos visitantes do estádio ao lidar com a
imagem preestabelecida de princesa da Disney em contraposição à ação proposta.
Comentários como “Que porra é essa?”, frase comumente ouvida pelos integrantes
do Coletivo Parabelo em suas ações, podem provocar deslocamentos da percepção
do transeunte/participante em relação aos seus hábitos e certezas e, assim, dar
uma efêmera visibilidade a questões como as que estão escondidas atrás das “cortinas”
que encobrem os paradoxos da realização de uma copa do mundo no país.
